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A IMPORTÂNCIA DA VISÃO DO TODO NA ARQUITETURA E NO URBANISMO

O que chamo de “visão do todo” é basicamente um olhar amplo sobre qualquer assunto. No nosso dia-a-dia, vemos frequentemente uma dualidade nas opiniões, com erros sendo combatidos com o erro oposto.

Assim, o machismo acaba sendo atacado com a priorização da mulher ao invés do homem,  o preconceito racial é combatido com um outro preconceito racial, apenas trocando as raças, e por aí vai.

No urbanismo, o mesmo tipo de ideologia acontece em relação à predominância dos carros sobre os outros meios de locomoção, pelo menos em grandes cidades. Particularmente, sou muito a favor de um urbanismo mais equilibrado, e realmente voltado para um lado mais “humano”, que privilegie contatos mais próximos e também menos agressivo e impactante sobre o meio-ambiente. Mas vamos prestar atenção, eu disse equilibrado, não disse anti-carros.

Não adianta focarmos apenas no aspecto que queremos melhorar e ao mesmo tempo tentarmos destruir ou anular o lado que predomina no momento, pois ao fazer isso estamos ignorando fatos que devem ser também considerados no planejamento total. Caso contrário a tendência é criar um outro tipo de desequilíbrio, ou simplesmente fazer com que as tentativas de solução não funcionem, porque não se encaixam com a realidade. Aqui muitos podem pensar que a realidade é que “os motoristas são monstros e querem a cidade só para eles”, mas não é essa a realidade que vejo, de mocinhos e vilões. Essa visão vitimista, que ataca com unhas e dentes um suposto agente do mau que pode ou não existir, acaba criando um clima de conflito que só atrapalha.

A visão do todo envolve inclusão de tudo e de todos. Ao projetar um ambiente, por exemplo, precisamos pensar em todos que utilizarão o espaço, e criar soluções que os atendam. Existe até um conceito chamado “Desenho Universal“, que busca estabelecer medidas e características que sejam confortáveis para todos, sejam eles adultos, crianças, idosos ou cadeirantes. E eu ainda gosto de incluir nessa equação os animais que vivem conosco. (Ver também: “Móveis para Pessoas e Pets“)

Da mesma forma, não adianta tentarmos utilizar fórmulas prontas que possam ter funcionado em outros lugares e sairmos aplicando a mesma receita de bolo em todos os ambientes e cidades, pois cada caso deve ser analisado com calma. E com a visão do todo.

Quando analisamos uma cidade, por exemplo, cada uma tem suas particularidades de uso, de dinâmica. São Paulo, por exemplo, é uma cidade muito diversificada e com regiões muito distintas, inclusive em relação à topografia, que é plana em algumas regiões e muito acidentada em outras. E enquanto alguns trabalham perto de casa, muitos trabalham bem longe ou então precisam circular pela cidade o dia todo. As soluções urbanísticas precisariam ser mais complexas e ao mesmo tempo mais abrangentes, mantendo, por exemplo, vias de circulação de maior velocidade, mais separadas dos pedestres, ciclistas e comércio local, para atender aos que precisam atravessar a cidade, e ao mesmo tempo criando soluções mais pontuais de uso humanizado e social, em áreas específicas onde isso seja viável e adequado. Mais eficiente e seguro para todos.

artigo visao do todo urbanismo-capaCiclofaixa criada sobre a calçada de pedestres, no Jaguaré, em São Paulo.

Soluções genéricas ou copiadas de outros lugares, mesmo que sejam bem intencionadas, são limitadas e acabam não resolvendo de verdade o problema de ninguém, além de criarem mais alguns. Isso acontece porque os problemas locais não foram vistos de verdade, pelo menos não de forma total, ampla e imparcial, e as “soluções” são feitas de maneira impositiva e agressiva, desconsiderando simplesmente alguns setores, como ciclofaixas feitas em cima da calçada, desaparecendo com o espaço do pedestre, ou faixas de ônibus em locais que prejudicam os comerciantes e causam atropelamentos e acidentes, prejudicando, como se percebe, não só os automóveis, mas todo o uso urbano, em qualquer escala.

É a mesma coisa que acontece quando pensamos em uma construção isolada, sem pensar no entorno, e ao terminar a obra, olhando a partir da rua, as construções vizinhas não têm harmonia e acabam ficando duplamente desvalorizadas, independente de qual seja mais chamativa. Nenhuma das duas está errada por existir, elas apenas deveriam se encaixar. E para encaixar é preciso pensar na construção como um todo, envolvendo a análise das construções vizinhas, da região, da movimentação da rua e também das necessidades e expectativas que quem vai usar esse local por dentro. Nada pode ser esquecido.

Na arquitetura, no urbanismo e na vida em geral, portanto, a visão do todo é essencial, mas infelizmente não muito utilizada. Ter a mente aberta não é simplesmente querer mudanças, e sim enxergar de verdade o que acontece para saber quais mudanças são realmente necessárias e eficientes. Senão ficaremos eternamente defendendo pontos de vista e necessidades específicas, quando poderíamos, com atenção e critério, englobar todas elas.

Texto: Arquiteta Fernanda DG


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