ARQUITETURA DE INTERIORES TAMBÉM É ARQUITETURA

Um dia desses vi uma imagem com uma suposta piada onde uma pessoa dizia que queria se formar em arquitetura, e em seguida dizia “Quero decorar casas”, como se isso nunca pudesse acontecer e fosse só o triste destino daqueles que não conseguem enveredar pelo ramo de projetar grandes arranha-céus ou outras construções a partir do terreno.

Essa desvalorização dos projetos de interiores é muito comum, especialmente no mundo acadêmico da arquitetura. Quando estava estudando, embora tivesse no currículo as matérias relativas a interiores, bem como as referentes ao urbanismo, essa área sempre pareceu ser vista como  menos importante, principalmente pelos professores de projeto e muitos alunos.

Nunca entendi direito essa desvalorização do projeto de interiores, já que ele envolve também, da mesma forma que outros projetos de arquitetura, o planejamento dos espaços para garantir seu uso de maneira agradável e eficiente. Envolve perceber as subjetividades de cada cliente ou usuário, as questões técnicas, psicológicas e funcionais de cada ambiente, e adequar todas as necessidades e objetivos aos materiais e técnicas disponíveis, com criatividade e bom senso. (Ver também: “Segredos de um bom projeto de arquitetura“)

Alguns arquitetos se envergonham de trabalhar nesse setor, e outros chamam os projetos de mobiliário, forro, alteração de layout e planejamento de cores e revestimentos de “projetinhos”.

Mas a partir de um certo momento comecei a enxergar a causa dessa depreciação, embora não sejam motivos muito bem embasados:

– O design de interiores é feito apenas superficialmente

Não precisava ser assim, mas a parte interna das construções é encarada e tratada normalmente de maneira superficial, com foco só na aparência. Profissionais exibem seus trabalhos destacando apenas o visual, ou então evitam esse tipo de trabalho e diminuem os colegas que mexem com isso, como se eles só escolhessem a cor da cortina para combinar com o sofá. E como se até isso não precisasse de algum critério. Uma triste realidade, pois assim como a volumetria das construções, as soluções para os espaços internos também podem interferir diretamente nas sensações, gastos e praticidades das pessoas, e quando isso é tratado com desprezo até mesmo os melhores projetos de prédios e casas podem ser destruídos.

– A cultura da grandiosidade

Outro ponto parece ser a tendência a dar importância apenas para o que é grandioso, ou que pelo menos remeta à grandiosidade na cabeça da humanidade. Aquilo que é fisicamente bem maior do que nós, aquilo que chama atenção e aquilo que fica famoso é grandioso, digno de respeito e admiração, e o resto é o resto, diz a regra social. Mas isso não poderia ter menos sentido e ser mais equivocado. Detalhes pouco chamativos podem fazer muita diferença, chamar atenção ou ser famoso não são garantias de qualidade e nem de maior valor, e o tamanho da construção também não interfere na sua importância.

Lembro que na faculdade tive um professor do tipo estrela, famoso mas sem conteúdo e muito menos didática, e que não aceitou de jeito nenhum que eu fizesse como trabalho de conclusão de curso um projeto de condomínio residencial diferenciado, aberto para a rua e com estruturas e distribuição que propiciassem a segurança e a dinâmica amigável entre os moradores e o entorno. Tinha que ser prédio, tinha que causar impacto visual. Por quê? Porque sim, disse ele. Não podia ser “projeto de casinha”. Todo o impacto não visual e os questionamentos sobre o uso dos espaços urbanos de moradia, o impacto dos aglomerados residenciais na cidade e o efeito das soluções no dia a dia das pessoas que moram nas casas e que circulam entre elas aparentemente não importam se não estivermos falando de muitos andares e muitos metros quadrados de imponência e exacerbação do poder humano. Essa sim é uma visão realmente superficial.

Nas construções, na decoração, nas reformas e no design de interiores é preciso, para fazer um bom trabalho, criatividade e sensibilidade. Não importa o tamanho da intervenção, importa que ela seja feita com cuidado e que funcione bem. A diferença muda o foco e a escala, mas não o desafio. Esse é o valor e a essência da arquitetura, seja de um arranha-céu, de uma casa ou de um pequeno móvel. A não ser que as características da sua casa tenham menos impacto sobre você do que aquela obra enorme que saiu na revista no mês passado.

Texto: Arquiteta Fernanda DG

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