COMO CRIAR CICLOFAIXAS EFICIENTES

Para que uma ciclofaixa, assim como qualquer outra intervenção urbana, possa funcionar adequadamente, é preciso que ela seja planejada com um tipo de inteligência associada à sensibilidade e com uma visão ampla da situação e de todos os usuários envolvidos.

As vantagens da ciclofaixa

A ciclofaixa ou ciclovia é extremamente benéfica dentro de uma cidade, pois permite que exista um meio de transporte sustentável, econômico e que ocupa pouco espaço. Isso é bom para as pessoas que a utilizam e pode até ajudar a desafogar o trânsito de veículos motorizados.

Frequentemente surge um debate dualista e parcial onde só existem as posições “contra” ou “a favor” das bicicletas e das ciclofaixas, mas o ponto a ser levantado aqui é como ela pode ser inserida no contexto urbano de maneira a cumprir com o seu propósito, e não um questionamento de sua validade ou importância.

Repetir soluções não é solução

Soluções prontas têm uma chance enorme de não funcionar, simplesmente porque não levam em consideração as condições específicas de cada local. No caso das ciclofaixas, alguns dos fatores que têm que ser levados em conta na hora de pensar onde elas serão criadas são:

– A topografia das ruas, já que vias muito íngremes não são convidativas para bicicletas, ou pelo menos para ciclistas menos preparados.

– O tipo de circulação existente em cada área, analisando e mantendo as tendências de fluxo expresso, ou seja, de maior distância, ou de fluxo local de cada região, para que os percursos das ciclofaixas atendam especialmente a essa segunda demanda, que certamente será a que maior poderá usufruir da sua existência.

– O espaço existente em cada via, para exista um lugar proporcional e adequado para todos.

– As demandas e tipo de circulação necessárias em cada local, analisando, por exemplo, se aquela rua é predominantemente comercial ou residencial, se tem muitas garagens voltadas diretamente para a via, ou se existem muitos locais de entrada e saída, como vias transversais ou acessos de muito movimento.

Todos esses fatores exemplificam a diferença que pode existir não só apenas de uma região para outra, como mais ainda de um país para outro, portanto não basta copiar soluções que funcionaram em outro local, sob outras condições. A visão atenta e livre de ideias pré-estabelecidas é um dos maiores indicadores da inteligência real e também o principal requisito para soluções realmente adequadas e eficientes.

Exemplos de ciclofaixas que funcionam

Foi feita uma intervenção urbana em Nova Iorque, acrescentando ou alterando a posição das ciclofaixas, e essa intervenção teve resultados positivos – em Nova Iorque. Isso porque elas foram feitas de acordo com as condições do local. E quando digo condições não estou falando apenas de cultura ou de consciência no trânsito, que são sempre importantes. Existem outras questões além disso, relativas a espaços, usos e formas, que foram aproveitadas pelo projeto:

As ciclofaixas foram implantadas em vias largas, planas, com muitas faixas. Essas faixas foram mantidas, em alguns casos, apenas alterando a posição dos carros estacionados e da ciclofaixa, para deixar a ciclofaixa mais protegida.

ciclofaixa ny - NYC DOT 1Imagem: NYC DOT

Em outros locais a ciclofaixa não existia, e foi acrescentada. Para isso, a quantidade de faixas foi mantida, com largura reduzida para 10 polegadas, ou seja, 2,54 metros, uma largura ainda confortável. A insegurança que vem da redução da largura das faixas tem a ver, quando ocorre, com medidas insuficientes ou então com a imprudência de alguns motociclistas que fazem do meio fio a sua via particular ou que circulam em qualquer velocidade e mudando de faixa em qualquer local ou situação. Para um carro de qualquer porte, a largura de 2,50m é considerada ideal inclusive para vagas de estacionamento, onde é preciso abrir as portas para sair.

ciclofaixa ny - NYC DOT 2Imagem: NYC DOT

Apenas em algumas vias as faixas de veículos foram reduzidas em quantidade, onde foi considerado que essas faixas não seriam necessárias, graças à disponibilização de meios de transporte alternativos, abundantes nesses locais específicos, criando espaço para uma via de ônibus e para a nova ciclofaixa. Mesmo assim ainda sobraram três vias para circulação de automóveis, assim como espaço para estacionar dos dois lados, e a ciclofaixa ficou reservada, próxima à calçada e protegida pelos carros estacionados.

ciclofaixa ny - NYC DOT 3Imagem: NYC DOT

Exemplos de ciclofaixas que não funcionam

Em qualquer projeto de arquitetura ou de urbanismo, existem questões subjetivas, como gostos pessoais, assim como existem também situações específicas que fogem do programado. Não se trata de uma questão matemática, com eficiência 100% garantida. Mas a ineficiência, em alguns casos, pode ser praticamente garantida, pelo menos em situações de falta de planejamento ou da absoluta falta de inteligência durante o projeto. Um escada que leve diretamente a uma parede, por exemplo, não é uma solução com prós e contras, ela é algo que não deveria nunca ter sido feito, pois atrapalha ao invés de ajudar. Isso não significa que escadas são ruins, e sim que algo que era inicialmente positivo e necessário pode ser transformado em um problema se for feito de qualquer jeito. Algumas ações são simplesmente ineficazes, independente de opiniões ou questões relativas.

No caso das ciclofaixas, alguns exemplos de ineficiência absoluta são os descritos abaixo:

– Ciclofaixas pintadas na sarjeta estreita ou com piso extremamente irregular, ou então em vias muito íngremes, dificultando ou até impedindo seu uso pelos ciclistas;

– Calçadas pintadas de ciclofaixas em sua totalidade, inviabilizando a circulação de pedestres;

ciclofaixa na calçadaCalçada transformada em ciclofaixa, no Jaguaré, em São Paulo.

– Ciclofaixas na sarjeta rente a calçadas que servem inteiramente como acesso a garagens residenciais, que impedem os carros de desacelerarem ou pararem para abrir e entrar em suas garagens sem comprometer a circulação dos carros ou das bicicletas;

– Ciclofaixas que impedem o fluxo de pedestres e deixam o ciclista sem condições de visibilidade, como nas ciclofaixas feitas entre os pilares de um viaduto, eliminando qualquer alternativa de passagem dos pedestres por fora da via de bicicletas e ainda sem permitir qualquer visão do ciclista em relação a estes pedestres quando eles se aproximam para passar pela ciclofaixa.

Todas essas “soluções” tornam o uso da ciclofaixa ineficiente para o próprio ciclista, além de prejudicarem os outros usuários, especialmente os pedestres. Portanto não vale a afirmação de que é melhor fazer qualquer coisa do que não fazer nada. Em algumas situações, normalmente criadas pela falta de preocupação ou de percepção inteligente, a emenda deixa tudo pior do que estava. No caso das ciclovias mal feitas, a grande pena é que a ideia inicial de inclusão e humanização das cidades, tão válida e necessária, acaba ficando ainda mais distante ao invés de se efetivar.

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Imagem de capa: 8th Avenue, NYC DOT

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